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UM BOM TREINADOR DEVE APENAS GOSTAR DE CÃES?

 Pode-se dizer que todo treinamento de animais se dá através de atitudes e metodologias provindas do comportamentalismo e etologia (estudo do comportamento animal). De alguma forma, é o homem utilizando de forma inteligente os impulsos inatos de um animal, a fim de obter o controle do mesmo na execução de uma função que satisfaça a sua necessidade.Um treinador de cães deverá, em sua formação, dominar os conceitos e técnicas do comportamentalismo e do comportamento canino, habilitando-se na sua capacidade de analisar constantemente sobre o quanto a sua própria necessidade de controle está inserida na relação com o animal.Por isso, este artigo não trata do elenco de características desejáveis que um adestrador de cães deveria apresentar como princípios máximos a serem seguidos, mas sim trata da consciência que todo treinador deve ter sobre seus próprios sentimentos primitivos.Gostar de animais ou até mesmo se declarar um defensor deles não significa aptidão e competência para lidar com eles ou treiná-los. Há vários casos de maus-tratos cometidos por pessoas e treinadores que se dizem amantes dos animais. Essas pessoas não estão mentindo quando dizem serem amantes dos animais, apenas não desenvolveram auto-controle suficiente para lidar com os seus instintos primitivos e quando algo foge do controle elas tendem a não ter repertórios suficientes para retomar o controle de forma saudável, ou seja, sem violência e autoritarismo.A psicanalista Selma Fraiberg em um de seus livros coloca:“todas as qualidades que chamamos de humanas derivam da possibilidade inerente a cada criatura humana de adquirir controle sobre seu eu instintivo”.É interessante analisarmos o conceito de liberdade sob esse ponto de vista. Até que ponto podemos nos declararmos livres sem o controle do nosso eu instintivo? Somos livres sem auto-controle?Por essa razão, este artigo não trata das qualidades que um treinador de animais deve apresentar, mas sim um artigo que traz à tona uma característica intrínseca que todo treinador de animais deve apresentar: a sua necessidade de controlar um outro animal. Refletir sobre o motivo que o levou a escolher esta atividade profissional não pode se resumir em gostar de animais. Essa necessidade de controle pode determinar o quanto de pressão e ansiedade estão sendo postas em um treinamento, além de outros fatores que podem vir a prejudicar o seu trabalho principalmente se a necessidade de controle de um animal satisfaz o próprio ego ou obsessão do treinador. Imaginem essa falta de consciência de si próprio no trato com um animal dentro de instituições hierarquizadas onde geralmente é o ego daquele que ocupa o topo da hierarquia que define o direcionamento do treino e não o autocontrole e conhecimento das técnicas e teorias tão necessárias em qualquer treinamento de animais.Por isso, é importante que todo adestrador busque essa consciência sobre si e sobre a sua escolha, uma vez que o sabor do controle de um animal é algo que lhe traz uma sensação de poder. Isso não é difícil de compreender, pois estabelecer um elo de comunicação com qualquer outra espécie que não seja a humana, sem antropomorfizar (humanizar) o animal, é um sentimento poderoso. Todo dono de cachorro deseja o controle do seu animal.Deixo para os treinadores refletirem que antes de controlar os instintos primitivos de um animal, eles devem saber controlar os seus próprios instintos. Não é um caminho fácil e a busca é constante, mas esse é o maior desafio que coloco a qualquer treinador.Um grande abraço a todos.Ivan Chitolina